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Quando os minutos se calam

janeiro 28, 2012

Faltando um minuto para o dia a seguir, comecei a pensar no dia em que estava. Tentei repará-lo e senti-lo. Mas nada veio, a não ser o de sempre: silêncio – daqueles inquietantes. Fiquei tanto tempo pensando no dia em que estava que não reparei que não estava mais nele – só atentei ao observar o relógio e notar os quatro minutos excedentes. Ele se tornara outro subitamente, mas permanecia intacto como o dia que passou. Comecei a formar uma ideia do dia a seguir então, que, a essa altura, já era o dia em que estava.

(Re)comecei a me iludir. Criei um dia ideal, acrescentei um pouco de vontades e subtrai os temores. Passei vários minutos tentando formatar um pseudo dia perfeito para que, no final do dia, pudesse novamente refletir sobre o dia em que estava e me iludir com o dia a seguir. Minha rotina seguia um ciclo como os ponteiros do relógio.

Percebendo a confusão que formara, voltei a notar o dia em que estava e que iniciou há pouco – o relógio me dizia. Só que desta vez o que me chamou atenção foi a volta do silêncio inquietante. Observei que o silêncio a que me referia era acrescido de uma voz – quase um sussuro – e que não sabia a procedência. Olhei para um lado, para outro, e nada. A voz não parava de falar nem por um minuto e isso me deixava desassossegado. Momentaneamente senti um pouco de medo, achando que pudesse ser algo sobrenatural. Quando estava prestes a me desesperar, percebi que a voz sussurada vinha de mim. Era a voz de tudo aquilo que pensava. Meu pensamento ficou por minutos procurando a voz de si mesmo. Parei para pensar no silêncio, imediatamente. E quando o fiz continuei não o tendo por perto. Então parei de pensar.

(silêncio)

Quando a mente voltou a trabalhar, sua voz berrou: “Vamos voltar a pensar no dia a seguir?” e, automaticamente, comecei a pensar no dia em que estava. Só que desta vez raciocinei de uma maneira diferente. Parei de pensar sobre ele e tentei entender o que ele significava. Estava intrigado com o que acabara de observar. Olhei para o relógio e vi a hora marcando trinta e sete minutos de dia novo. Fiquei confuso por um minuto, até que o ponteiro completou mais uma volta e fez o relógio marcar novo horário. Nesse momento minha mente se iluminou, tentando se calar. Compreendi que não era o relógio que determinava o dia em que estava, pois ele – o dia – sempre existiu independente do tempo. Um novo clareamento surgiu e a voz quase emudeceu. O que há pouco tinha chamado de dia, entendi que não era nada mais que o meu Presente, o Agora sem o acréscimo das horas indicadas pelo falho instrumento.

(silêncio)

Agora sim pude sentir o meu dia. Abro um sorriso, aliviado, e vou me deitar sem precisar olhar para o relógio.

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