Volto a escrever, não para falar de ti, mas de mim.
Quero contar as lembranças dos tempos mais remotos e toda minha vida efêmera. Tenho memórias distantes, mas todas me parecem recentes. A proximidade delas não se deve ao fato em si – que muitas vezes mal consigo lembrar – , mas ao que as compunha e como até hoje consigo descrevê-las sensivelmente. Lembro dos exatos sentimentos exaltados, na mesma intensidade e importância. Posso revelar tudo o que significou para mim e para os que estiveram ligados ao que sou, ou fui. Até quando me refiro a ti, pois também sou capaz de traduzí-lo perfeitamente em essência, mas não vim para falar de ti.
Quando tinha quatro anos de idade eu e meu irmão ganhamos uma bicicleta de natal. Meu irmão é um ano mais velho que eu, logo ele tinha cinco. A dele era maior e vermelha e a minha azul. Cada um ganhou uma, ou era o que achávamos. O que a princípio pareceu ser um momento de muita alegria, dias após se tornou um dos fatos mais antigos e mais marcantes que presenciei na minha vida interna. Por uma confusão da minha avó materna, ela teve que devolver uma das bicicletas, e foi justamente a do meu irmão. Consigo recordar a exata expressão dele ao perder seu objeto querido. Lembro também de perguntar para a minha mãe porque não poderiam levar a minha ao invés de levarem a dele. Não sei qual foi a resposta, talvez tenham sido compradas em lugares diferentes, não sei. Era novo demais para entender o fato, mas maduro demais para absorver o momento. Acho que esse é o primeiro sentimento intenso a que me recordo: a dor do meu irmão.
A partir deste dia, resolvi que eu faria de tudo para que ele jamais sofresse a mesma coisa. Sempre que ganhávamos algo eu perguntava qual ele tinha gostado mais, pois assim evitaria sua decepção. Quando abria a geladeira e via que tinha apenas uma maçã, eu não comia, pensando que talvez ele pudesse querer. Isso revelou um pouco de como eu sou: um eterno doador.
Sou um cara sem muitas posses e acho que o acontecimento há cerca de 25 anos me fez compreender desde cedo que nada daquilo que achamos possuir são necessários ou possuímos de fato. Não tenho o mesmo apego que a maioria, pelo menos não no quesito material. Para mim o sorriso, a satisfação, a troca, o afeto, amor, tudo isso é tão belo e importante que faz o restante se reduzir a nada. Por que deveria perder tempo cultivando objetos que “nascem” fadados a extinguir-se, cedo ou tarde? Não me entendam errado, também adoro possuir, como todos, mas acima de tudo amo cultivar. Cultivar o sorriso de quem gostamos, os momentos inesquecíveis, o apoio e incentivo, a segurança e conforto. Da mesma forma que sempre fiz contigo, mas não vim para falar de ti.
Eu sempre doei para todos que pude, mas há aqueles raros para os quais doei até aquilo que não possuia. E percebi que essa é a verdadeira doação. É lindo o ato de dar algo que você tem – e geralmente não precisa – para quem não tem e está necessitando, mas não existe nada mais absoluto e essencial que a doação pura, coisa que só acontece quando desenvolvemos um amor incondicional. Na frente dessas pessoas eu fico nu, despido de mim e de todas as coisas, pois a mim nada pertence. Consigo olhar para meu ato e me ver, como sou de verdade, e não como aprendi a desenvolver e aceitar. Nessa doação nada é perecível.
Estou longe da perfeição, eu sei, mas também parei há um tempo de buscá-la. Acho que isso está fazendo eu vasculhar mais facilmente aqui dentro. Entender. Deixar de lado todos os sentimentos que me distanciam do meu eu verdadeiro. Estou reaprendendo, buscando nas pequenas coisas a sensibilidade que me faz viver e deixando de dar valor ao que não merece atenção. Está sendo um movimento de dentro para fora, me expondo completamente. E, por incrível que possa parecer, isso faz eu entender melhor as pessoas e suas atitudes falhas e tortas. Estou me reeducando a existir e a me sensibilizar ao máximo.
Vim para falar de mim e um pouco das lembranças que indicam quem sou. Sei que disse algumas vezes que não falaria de ti, mas na verdade, ao falar de mim eu já o faço, é inevitável. Não pelo que você é ou foi, ou pelo que construímos juntos, mas pelo que fui capaz de captar e que minha memória transformou em essência. E isso sou eu também. Você está aqui. Dentro. Para sempre. E se as lembranças são memórias e as memórias são saudades, você está presente em lugar privilegiado. Da mesma forma que o menino de cinco anos sofrendo pela perda e que trouxe de volta pedaços que me compõem.

