
Minha exceção
janeiro 15, 2012Eu sei o que você quer de mim. E a recíproca é verdadeira.
No caminho ordinário, encontro marcas que são difíceis defrontar. As máscaras são pintadas, os acessórios meticulosamente pregados e o disfarce vestido, mas existe algo que não consigo esconder.
Um álbum de fotografias expõe o suposto segredo adormecido, mas não os negligencia. Da mesma forma, as fotos que o compõe – que são memória – trazem à superfície saudações do que fui, do que poderia ter sido e do que planejava ser. Mas nada disso fora de verdade Eu, senão Eu mesmo, um Eu metafórico e dissimulado, por ser Outro de mim. Outrora Outro, agora Eu. E se o Eu que era Outro e agora sou Eu pode ser mais um, por que não ser um Outro Eu, distinto, mas igual?
Meu passado foi meu presente quando não era nada, mas acredito no nada da mesma forma que creio no tudo. O que é o tudo sem o nada? Antes de ser tudo, tudo era nada. E como tudo foi nada, e nada é ausência, a sentença é não saber nada por sua verdade precedente. Uma verdade que pode ser o nada anterior ao tudo. Assim sendo, como poderemos saber a respeito das coisas ou das pessoas? Onde engasto as coisas que sei se nada sei?
O passado de ontem que era nada, mostra que hoje é presença, e esta é quase-tudo. O Outro que era Eu, agora é um Outro Eu, que junto com o quase-tudo – que não é nada e nem é tudo – é algo. Tendo isso em vista, passo a olhar também para a memória – que é sensação – e descubro que sei algo sobre você, mesmo que não seja tudo. São confidências guardadas junto com as fotos veladas e todo o fingimento.
Você é a minha exceção, o Outro Eu que faltava. Você é o nada que é tudo e o conforto de cada manhã. Você é a minha desilusão que surge toda vez que minha ilusão cessa. Você é o costume, o raro, o desfigurado. Você é o dissemelhante. Você é o segredo, o exigente, o perigoso.
Sua alma está exposta no meu álbum. E isso não podemos mudar. Talvez o Outro Eu possa, mas não o que me refiro. Por isso continuo vestindo a máscara, folheando a sensação – que é essência – e acreditando. Acreditando que se tudo é desconhecido – e esse tudo um dia foi nada – talvez o nada, que é ausência, se torne presença. Ou um resquício dela, que usarei para saber algo no meio de tanta falta.
Ainda que diga saber alguma coisa, a única certeza que terei é que continuaremos não sabendo a respeito de qualquer coisa. E isso é verdadeiro. Tão verdadeiro quanto o álbum, que é memória e é sensação e é essência; tão verdadeiro quanto as diferenças notadas e reveladas; tão verdadeiro quanto as aparências conservadas e as esperanças construídas; tão verdadeiro quanto a verdade de não saber verdades; e mais do que isso, tão verdadeiro quanto a própria recíproca quando ainda digo que sei o que você quer de mim.

Pela primeira vez vou dizer que algo é “complicadamente encantador” e agora sei que o complicado pode ser encantador assim como o simples.
Incrivel como esse SEU conflito pode ser ao mesmo tempo o conflito de todos nós, que apesar de sempre afirmarmos nunca somos a mesma pessoa que fomos há algum tempo, sempre, por qualquer motivo mudamos o nosso EU, mas tentamos sempre manter a essencia do que achamos ser o EU verdadeiro.
E sobre tudo sempre ser nada antes de ser tudo é a mais pura realidade, acho que é, junto com a verdade de não sabermos sobre nada, a unica coisa realmente certa na vida.
Isso me faz feliz. Porque sei que posso transformar meus “nadas” em tudo e que sempre poderei aprender mais e mais sobre as coisas que amo.
Mais um texto fantástico.
Esse deu um nó, né? rs
Pois é.. tem dias que estou com a mente mais obnubilada.
Mas fico feliz em ver que consegue captar a essência da mesma forma.
Hoje devo postar um mais simples, aí nós desfazemos os nós =P
Sempre escrevo o que entendi, porque seus textos sempre me dizem muito, fico feliz por saber que entendo a essência.
Estou a espera do próximo, para desatar os nós.