Posts de 15 janeiro, 2012

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Palavras apenas, palavras pequenas

janeiro 15, 2012

Noite tranquila. Um bebê chora. Rapidamente notamos a luz acendendo e uma mulher com a aparência cansada pacientemente pegando uma criança no colo. O choro termina. O silêncio impera. Normalmente o silêncio indicaria que o bebê deixou o desejo de lado e tornou a dormir, mas ao invés disso, ele continua nos braços da mãe, sendo amamentado. Ambos se comunicando.

Não há palavras, mas há troca. Uma troca tão natural e sobre-humana que dificilmente paramos para entendê-la. O choro que ora cessou também era troca, assim como o suspirar da mãe ao niná-lo, cansada e paciente.

Nós nos comunicamos de várias formas, ininterruptamente. Porém, valorizamos apenas uma: a palavra. Considero a palavra o pior e mais utilizado instrumento da comunicação. Talvez por ser o mais fácil ou o mais óbvio. No entanto, possui caracterísricas como: hesitação, multisignificação, indefinição e expiração.

Dizem por aí que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Provavelmente seja pela inconstância das palavras e a necessidade delas imoderadamente. Raramente conseguimos nos comunicar com um discurso curto e, mais raro ainda é entendermos seus diversos aspectos. Estamos sujeitos ao exagero de letras e sons em forma de fonética e regras.

Outra limitação diz respeito a sua natureza, que de tão minuciosa é quase palpável. Quase sempre a palavra está ligada ao pensamento, ou seja, à aptidão mental sobre as situações e as coisas em si, e também à emoção, ou melhor, àquilo que interpretamos ao ler, ouvir ou ver algo. Mas onde a palavra contempla o significado absoluto das coisas, que existe independente da estúpida retórica? Não há meio que sirva de melhor via para a comunicação do que nós mesmos. Precisamos deixar com que as coisas façam parte do que somos e não do que pensamos ou acreditamos ser, ou pior ainda, do que sujeitamos às normas impessoais e massivas.

Quantas vezes paramos para admirar algo e mesmo sem criar a expressão mental “que lindo” nós o achamos lindo? Quantas vezes nós choramos sem saber o porquê e nos emocionamos com um simples olhar? Quantas vezes intuimos coisas boas em alguém mesmo sem conhecê-lo e sem entender o propósito? Quantas vezes rimos sem querer e nos completamos com pouco? Quantas vezes paramos e só sentimos e mais nada?

Eu gosto do olhar ingênuo e primitivo do ser resistente. Gosto das dúvidas, das contradições usuais, da falta e do receio. Gosto também do tocar das almas que gera um entendimento pasmoso. Gosto do dia e da noite. Gosto das conquistas, mesmo sabendo que nada são. Gosto do requinte e do simples, juntos e isolados. Gosto do vazio e da relatividade. Gosto de pensar da mesma forma que gosto de sentir e de ser. Gosto de gostar até do que não compreendo e, nesses momentos, entendo minhas negações e incertezas. Isso me reconstrói. Sem palavras.

E mesmo sabendo que nada do que diga falará por mim, é através destas falhas eloquentes e falsas que me comunico e me torno minha própria objeção. Apresento minha troca implícita  por meio deste texto trincado, ineficaz,  incompleto, sem fim e sem sentido. Paradoxal como a vida, eis que através das mesmas palavras desvalorizadas, me transformo no meu próprio empecilho.

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Minha exceção

janeiro 15, 2012

Eu sei o que você quer de mim. E a recíproca é verdadeira.

No caminho ordinário, encontro marcas que são difíceis defrontar. As máscaras são pintadas, os acessórios meticulosamente pregados e o disfarce vestido, mas existe algo que não consigo esconder.

Um álbum de fotografias expõe o suposto segredo adormecido, mas não os negligencia. Da mesma forma, as fotos que o compõe – que são memória – trazem à superfície saudações do que fui, do que poderia ter sido e do que planejava ser. Mas nada disso fora de verdade Eu, senão Eu mesmo, um Eu metafórico e dissimulado, por ser Outro de mim. Outrora Outro, agora Eu. E se o Eu que era Outro e agora sou Eu pode ser mais um, por que não ser um Outro Eu, distinto, mas igual?

Meu passado foi meu presente quando não era nada, mas acredito no nada da mesma forma que creio no tudo. O que é o tudo sem o nada? Antes de ser tudo, tudo era nada. E como tudo foi nada, e nada é ausência, a sentença é não saber nada por sua verdade precedente. Uma verdade que pode ser o nada anterior ao tudo.  Assim sendo, como poderemos saber a respeito das coisas ou das pessoas? Onde engasto as coisas que sei se nada sei?

O passado de ontem que era nada, mostra que hoje é presença, e esta é quase-tudo. O Outro que era Eu, agora é um Outro Eu, que junto com o quase-tudo – que não é nada e nem é tudo – é algo. Tendo isso em vista, passo a olhar também para a memória – que é sensação – e descubro que sei algo sobre você, mesmo que não seja tudo. São confidências guardadas junto com as fotos veladas e todo o fingimento.

Você é a minha exceção, o Outro Eu que faltava. Você é o nada que é tudo e o conforto de cada manhã. Você é a minha desilusão que surge toda vez que minha ilusão cessa. Você é o costume, o raro, o desfigurado. Você é o dissemelhante. Você é o segredo, o exigente, o perigoso.

Sua alma está exposta no meu álbum. E isso não podemos mudar. Talvez o Outro Eu possa, mas não o que me refiro. Por isso continuo vestindo a máscara, folheando a sensação – que é essência – e acreditando. Acreditando que se tudo é desconhecido – e esse tudo um dia foi nada – talvez o nada, que é ausência, se torne presença. Ou um resquício dela, que usarei para saber algo no meio de tanta falta.

Ainda que diga saber alguma coisa, a única certeza que terei é que continuaremos não sabendo a respeito de qualquer coisa. E isso é verdadeiro. Tão verdadeiro quanto o álbum, que é memória e é sensação e é essência; tão verdadeiro quanto as diferenças notadas e reveladas; tão verdadeiro quanto as aparências conservadas e as esperanças construídas; tão verdadeiro quanto a verdade de não saber verdades; e mais do que isso, tão verdadeiro quanto a própria recíproca quando ainda digo que sei o que você quer de mim.