Noite tranquila. Um bebê chora. Rapidamente notamos a luz acendendo e uma mulher com a aparência cansada pacientemente pegando uma criança no colo. O choro termina. O silêncio impera. Normalmente o silêncio indicaria que o bebê deixou o desejo de lado e tornou a dormir, mas ao invés disso, ele continua nos braços da mãe, sendo amamentado. Ambos se comunicando.
Não há palavras, mas há troca. Uma troca tão natural e sobre-humana que dificilmente paramos para entendê-la. O choro que ora cessou também era troca, assim como o suspirar da mãe ao niná-lo, cansada e paciente.
Nós nos comunicamos de várias formas, ininterruptamente. Porém, valorizamos apenas uma: a palavra. Considero a palavra o pior e mais utilizado instrumento da comunicação. Talvez por ser o mais fácil ou o mais óbvio. No entanto, possui caracterísricas como: hesitação, multisignificação, indefinição e expiração.
Dizem por aí que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Provavelmente seja pela inconstância das palavras e a necessidade delas imoderadamente. Raramente conseguimos nos comunicar com um discurso curto e, mais raro ainda é entendermos seus diversos aspectos. Estamos sujeitos ao exagero de letras e sons em forma de fonética e regras.
Outra limitação diz respeito a sua natureza, que de tão minuciosa é quase palpável. Quase sempre a palavra está ligada ao pensamento, ou seja, à aptidão mental sobre as situações e as coisas em si, e também à emoção, ou melhor, àquilo que interpretamos ao ler, ouvir ou ver algo. Mas onde a palavra contempla o significado absoluto das coisas, que existe independente da estúpida retórica? Não há meio que sirva de melhor via para a comunicação do que nós mesmos. Precisamos deixar com que as coisas façam parte do que somos e não do que pensamos ou acreditamos ser, ou pior ainda, do que sujeitamos às normas impessoais e massivas.
Quantas vezes paramos para admirar algo e mesmo sem criar a expressão mental “que lindo” nós o achamos lindo? Quantas vezes nós choramos sem saber o porquê e nos emocionamos com um simples olhar? Quantas vezes intuimos coisas boas em alguém mesmo sem conhecê-lo e sem entender o propósito? Quantas vezes rimos sem querer e nos completamos com pouco? Quantas vezes paramos e só sentimos e mais nada?
Eu gosto do olhar ingênuo e primitivo do ser resistente. Gosto das dúvidas, das contradições usuais, da falta e do receio. Gosto também do tocar das almas que gera um entendimento pasmoso. Gosto do dia e da noite. Gosto das conquistas, mesmo sabendo que nada são. Gosto do requinte e do simples, juntos e isolados. Gosto do vazio e da relatividade. Gosto de pensar da mesma forma que gosto de sentir e de ser. Gosto de gostar até do que não compreendo e, nesses momentos, entendo minhas negações e incertezas. Isso me reconstrói. Sem palavras.
E mesmo sabendo que nada do que diga falará por mim, é através destas falhas eloquentes e falsas que me comunico e me torno minha própria objeção. Apresento minha troca implícita por meio deste texto trincado, ineficaz, incompleto, sem fim e sem sentido. Paradoxal como a vida, eis que através das mesmas palavras desvalorizadas, me transformo no meu próprio empecilho.


