
Como era de costume na minha antiga faculdade, eu e meus amigos estávamos conversando encostados no corrimão da escada que dava para o prédio em que estudávamos. Eis que um dia surge uma menina, devia ter seus 18 aninhos, magrinha, do tipo bem tímida. Se não fosse pelo detalhe de estar carregando em seus braços diversos livros talvez nem a tivesse reparado naquele momento. Eu estava em um ângulo privilegiado. Tudo aconteceu em segundos, mas para a pobre menina deve ter durado horas ou até dias. No momento em que ela encostou o pé no primeiro degrau veio o primeiro tombo. Só que ao mesmo tempo em que caia ela se esforçava em ficar de pé. Não houve tombo completo. Porém, toda vez que tentava se erguer vinha mais um degrau e mais um tombo. E assim foi durante toda escadaria. Uma queda incompleta, caindo, levantando e, ao mesmo tempo, subindo a escada. Quando enfim a menina chegou no último degrau veio o tombo final, e essa sim foi uma senhora queda. Os livros que carregava se espalharam por todo o chão. A menina chegou a permanecer alguns segundos imóvel. Lentamente foi catando os livros espalhados, com o rosto rubro de menina tímida, morrendo de vergonha, levantou-se e se dirigiu para o prédio. Ninguém tentou ajudar. Pelo contrário, durante o trajeto todos olharam pasmos com a cena, e quando, finalmente, ela chegou ao chão a única coisa que se conseguia ouvir ao redor eram as gargalhadas das pessoas. Inclusive a minha. Confesso que nunca ri tanto na minha vida. Ficamos horas rindo do acontecido e para ser sincero, hoje, dez anos após, continuo rindo da desgraça da menina. Nunca mais a vi, mas com certeza jamais a esquecerei.
Engraçado esse hábito que temos de rir dos outros. Como se a desgraça daquela pessoa naquele momento fosse maior que a sua. De toda sua vida. Quase um alívio. Acho que por isso o riso sempre vem junto com essas situações. Você ri do outro para não ter que rir de si mesmo. Uma defesa para nós mesmos de não nos mostrarmos pessoas falhas e às vezes deprimentes. Faz parte do nosso lado humano imperfeito. Talvez se a menina da história tivesse de fato se machucado a primeira reação fosse solidária de tentar ajudá-la, mas inevitavelmente ela se tornaria piada mais para frente (em poucos minutos, com certeza). É verdade que por vezes rimos das nossas próprias desgraças, mas o tempo entre o drama e a comédia nessas situações é sempre maior. Muito antes já viramos chacota das pessoas.


