Ontem pensei em dar um ponto final. Um ponto final na minha história, um ponto final na minha vida. Mas tudo me pareceu tão frágil. O lápis com o qual tentava pontuar não tinha mais ponta e a borracha que sempre apagava aquele pequeno ponto incerto já se fazia em pó. Um dia me disseram que o melhor era pontuar a caneta, mas qual seria a vantagem de pontuar e não poder sequer consertar aquele sinal minucioso? Eu já dei muitos pontos, de várias formas, mas sempre no mesmo lugar, e se me fosse tido o direito de escolher, diria que o melhor sempre estaria por vir. E mesmo assim não me dei o direito de escolhê-lo.
Hoje eu dei mais um ponto final. Um ponto final na minha história, um ponto final na minha vida. Mas tudo me pareceu tão falso. Porque o ponto que dei não era um ponto, e sim uma virgula. Toda vez que encostava o lápis no papel ele escapava e formava um risco sobressalente. Era minúsculo o erro, mas não era como havia de ser o ponto. Queria um ponto perfeito, um ponto exato. Por isso catei todo o farelo de borracha que ainda restava e experimentei mais uma vez apagar o ponto (ou a vírgula) que se formara, tentando com todo cuidado conter o borrão que pudesse aparecer. Eis que volto para onde acabara de sair: o papel em branco, pronto para mais uma tentativa, mais um ponto.
Amanhã vou tentar mais uma vez dar o ponto final. Um ponto final na minha história, um ponto final na minha vida. Mas tudo me parece tão vago. Enquanto eu espero o falado ponto, o ponto perfeito, paro e penso que talvez o erro não esteja no ponto em si, mas sim no próprio papel o qual escrevo, seja pelas marcas deixadas nele ou pela sua importância contida e registrada. Pensei em rasgar este pedaço de papel e esquecer do ponto final, até perceber que essa não era a saída, pois o ponto continuaria inacabado e imperfeito. Decidi então guardá-lo em uma gaveta e deixá-lo por lá, e junto com ele colocaria um pedaço de lápis, já em cotoco, e a borracha esfarelada, para que a cada momento em que abrisse a gaveta, tivesse mais uma tentativa. A tentativa do ponto perfeito, do ponto final.

