Posts de Outubro, 2007

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Televisão – o mal de quem não quer pensar

Outubro 29, 2007

Televisão

Se há uma coisa insuportável de se ver, esta coisa é TV de sinal aberto. A começar por suas novelas. Entra uma, sai outra, e é sempre a mesma repetição estúpida: a mocinha que sofre de amor, o mocinho injustiçado que é forçado a se separar de seu objeto amado, o vilão impune que só recebe seu castigo no último capítulo, personagens sem propósito que só servem para “encher lingüiça” e ocupar mais tempo no ar. Um enredo simples com personagens banais – salvo algumas poucas exceções- onde, na maioria das vezes, até os nomes são os mesmos.

Não existe espaço para a criatividade e inovação. Muito disso se deve a um esvaziamento do público, uma rejeição a novos formatos. Quando os autores tentam renovar, a ousadia se reflete em uma considerável queda de audiência e logo são obrigados a voltar à forma antiga. Por isso não vemos as emissoras arriscarem muito, e por isso também, mesmo mudando de canal, nos deparamos com programas absolutamente semelhantes. Não há o mínimo de variedade na programação de TV aberta. E isso não diz respeito apenas ao gênero novelístico, mas a todo e qualquer programa das estações transmissoras.

Obviamente o espectador tem grande culpa nisso, já que a programação é projetada segundo o que ele quer ver. Todos sabemos que a audiência é que faz a televisão funcionar. Sem público, há um menor interesse de investidor – no caso a publicidade -, o que pode levar a emissora à ruína. Definitivamente é algo de onde não se pode escapar, infelizmente.

Opondo-se a esta lógica -em partes, pelo menos -, está outro segmento de mercado: a TV de sinal codificado. Apesar de nos dias de hoje elas também se apoiarem na propaganda, sua base financeira é obtida através de assinatura. Isso contribui para: melhor elaboração estrutural; maior variedade, de conteúdo e de canais oferecidos – hoje em dia passando da casa dos 100-; e por conseguinte, uma maior identificação com esse tipo de espectador. O público deste segmento apresenta uma rigidez maior quanto ao que lhe é oferecido, porém, por vezes, se apresenta inflexível a mudanças. A exemplo disso, vemos que um número grande de pessoas que possuem TV por assinatura assistem constantemente a TV aberta.

Não é a intelectualidade que está em questão, mas sim como se dá esta recepção, ou melhor, como o espectador, independente de seu grau de instrução, se satisfaz ao ver televisão. Parece que estes gozam em não ter que pensar em frente a TV; é uma fuga do dia-a-dia cansativo e das situações do cotidiano. A televisão passa a ser um mero e simples canal de entretenimento, diversão. Paro para pensar se haverá um dia em que ela deixará de ser distração, passatempo, e se tornará arte. Logo em seguida, instantaneamente, me vem a resposta: impossível. Acho que a TV está bem distante deste conceito. A princípio espero apenas que, pelo menos, ela consiga ser vista também por seu conteúdo, e que se torne mais uma forma de aprendizado e formação cultural, o que já é um desejo bastante pretensioso.

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Jongo

Outubro 25, 2007

cinema de jongo

Às vezes sinto como se vivesse num mundo imaginário, onde as pessoas andam acima de nossas cabeças e falam jongonês. Tudo é ao contrário. Crianças não sabem rir e os animais, exceto os cachorros domésticos, choram toda vez que vêem TV. Fico triste ao saber que Jongo (o mundo ao qual me refiro) só existe nos fins de semana. O melhor de lá é que a religião e o social não são levados tão a sério. Contudo, é bom tomar cuidado para não ignorar qualquer procedência, pois toda vez que um feixe de luz passa sobre as cabeças de seus habitantes (miradas para o alto) e mais um espectro é lançado no universo, todos se sentam imediatamente e fazem silêncio. Ninguém comenta sobre isso, mas percebe-se o respeito aos novatos.

Por não haver uma única escola tradicional e uniforme, todas as palavras têm milhares de significado, mesmo só havendo uma língua. A única coisa que une e deve ser respeitada por todos é quanto a imagem. Em Jongo, uma imagem jamais pode ser subjetiva, é como uma lei a ser seguida e apreciada. As salas de cinema são centros de confraternização e existem em cada esquina. Os atores são príncipes, e os diretores, reis. Somente no cinema pode-se conhecer as verdadeiras leis, mas nem por isso se faz obrigatório a presença de todos. E todos comparecem. É emocionante ver a dedicação e preocupação geral nesta vasta e única comunidade.

Queria não ter que deixar esta realidade (sim, porque tudo isso é real), mas tenho que fazê-lo toda segunda-feira. Passo a semana inteira pensando no dia em que voltarei a Jongo e torço para que os dias se apressem, mas quase nunca isto acontece. É certo que não se trata de um mundo perfeito, nem ideal, mas é o mundo imperfeito no qual quero viver todos os dias da minha vida. Não sei se um dia isso vai acontecer, mas enquanto não acontece, vivo os dias a esperar pelos fins de semana.

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Morre o maior ator do Brasil

Outubro 21, 2007

Paulo Autran

Morreu o melhor ator brasileiro. Ou de todos os tempos. Paulo Autran lembra o que pra mim representa arte, a emoção. É isso que a arte faz comigo: evoca todos os meus sentimentos, mexe com eles, os embaralha de vez em quando, dando seus diversos significados, os confunde também… E por fim, traz a melhor sensação que alguém pode sentir. Desta forma que penso e sinto a arte, e é assim que vejo este grande ator que há pouco nos deixou. Jamais vou esquecer o olhar, a expressão, que só de ver dava arrepios. Assistir a uma peça com Paulo Autran é passar cerca de duas horas com seus pêlos completamente eriçados. E é uma emoção que não cessa, já que a sensação se mantém toda vez que a relembramos, e é a mesma daquela que a arte nos traz. Sim, ele é uma obra de arte, pois através daquele corpo de homem maduro conseguia-se ver o ponto mais profundo de sua alma.

Era fácil rir com ele, da mesma forma que também o era chorar. Através de Paulo pude acreditar que aquilo que o ator cria é de fato real. Os personagens, que tivemos oportunidade de ver encarnados em seu corpo, jamais foram imaginários, ele os explorava e os vivia intensamente. Lembro cada um deles, como sou capaz de lembrar pessoas diferentes. A cada criação nova um Paulo Autran surgia, mais um personagem, mais uma existência. Parecia um grande pintor sempre a pintar um grande quadro. E que quadros! Nossa herança acaba sendo estas inúmeras personalidades, que muitas vezes só podemos chamar à memória.

Devo muito a este grande artista. Minhas escolhas tiveram grande influência da arte Autraniana. Almejo acima de tudo fazer o mesmo que ele era capaz: através de minha arte “tocar” o íntimo das pessoas, fazê-las sentir. Por meio dele, constatei que isso era possível, e desde então minha trajetória se iniciou. Autran nos fará muita falta. Pelo menos a mim ele já faz. Deixo aqui registrado minha profunda admiração e meu sincero pesar, esperando que o exemplo de grande artista irradie no astral e não morra jamais.